segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Imprensa Alternativa*


Os anos 1960-1970 representaram um momento singular em nossa história. Coube à imprensa alternativa registrar os acontecimentos nos círculos do poder, no seio da sociedade civil e entre os movimentos de base e organizações populares.

Os pólos de resistência ao regime político implantado em 1964 faziam surgir veículos de comunicação que difundiam as perspectivas de suas lutas. Esses veículos eram alternativas à grande imprensa, ou imprensa empresarial, quase sempre voltada para os interesses da classe dominante. Os protagonistas dessa corajosa pequena imprensa eram os intelectuais de oposição, os grupos partidários, as Comunidades Eclesiais de Base (CEB), as Associações de Moradores, Sociedades de Amigos de Bairros dentre outros grupos populares.

O fenômeno da imprensa alternativa representa um momento histórico que rompe as fronteiras nacionais e se constitui num acontecimento de década. As rebeliões políticas e culturais ocorridas em várias partes do mundo na segunda metade da década de 1960 favoreceram ao surgimento de uma imprensa contestadora ao poder estabelecido. Vale ressaltar que a imprensa alternativa assumiu características próprias em cada país, de acordo com sua estrutura política e social. Na América Latina, ela teve um perfil de resistência política, impulsionada pela realidade autoritária que se impunha ao continente.

No Brasil, o poder militar, sobretudo a partir da decretação do Ato Institucional n° 5 (AI-5), cerceava o direito à livre expressão aos políticos, intelectuais e organizações sociais por meio de cassação de mandatos parlamentares e da censura aos meios de comunicação de massa e manifestações culturais. Com a grande imprensa sob vigilância ou comprometida com o poder, restava a esses grupos criar formas alternativas de comunicação como instrumento de com­bate e crítica ao regime político. Resistir e denunciar eram atos de bravura e afirmação ideológica, numa luta contra um esquema montado para a repressão, que em muitos casos chegou a levar à tortura e à morte políticos, trabalhadores, intelectuais e jornalistas.

Em 1969 surge o tablóide que se tornou um dos principais símbolos dessa resistência. Fundado por jornalistas situados no Rio de Janeiro O Pasquim – depois chamado simplesmente de Pasquim - tinha nomes representativos como Ziraldo, Jaguar, Ivan Lessa, Henfil, Millôr Fernandes, que faziam de forma radical e renovadora a crítica aos destinos obscuros da sociedade brasileira, por meio de artigos e principalmente muito humor. A charge e a crítica implacável dos articulistas moldaram a feição do jornal, que chegou a ser considerado um marco da imprensa no Brasil.

Antecedendo o surgimento de O Pasquim, porém, existiu entre 1964 e 1968 um tipo de publicação nos mesmos moldes da imprensa alternativa. Raimundo Rodrigues Pereira afirma que nesse período havia no país uma imprensa democrática, nacionalista e popular de resistência ao modelo político em implantação. São exemplos dessas publicações o jornal Pif-Paf, comandado por Millôr Fernandes; o semanário Reunião, do empresário nacionalista Ênio da Silveira; Fato Novo, ligado a nacionalistas de São Paulo; e Amanhã, semanário para os trabalhadores feito por estudantes da Faculdade de Filosofia, de São Paulo
[1].

O advento do AI-5 em dezembro de 1968 e o fechamento ainda maior do regime político obrigaram os intelectuais de esquerda e organizações populares a seguirem o caminho da clandestinidade, impulsionando a radicalização de alguns setores que se decidiram pela guerrilha urbana e rural. Outro setor, ligado à imprensa, restringiu-se à edição de panfletos e tablóides semanais, mensais ou mesmo sem periodicidade.

Esses jornais de pequenas tiragens e distribuição precária muitas vezes não conseguiam ultrapassar meia dúzia de edições. Apesar disso, eles representaram o maior fórum de debates sobre os principais aspectos da vida brasileira e um momento de tomada de consciência da imprensa nacional.

Um dos principais inimigos dessas publicações e da imprensa comercial foi a censura oficial, que após o AI-5 se instalou nas redações dos jornais. Mas a imprensa alternativa foi particularmente visada pelos atos de censura e repressão: "Repetidamente, censurou-se matérias já publicadas por outros órgãos da imprensa chamada burguesa, como o 'Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo', também vigiados, e como - com a presença dos censores na redação... e, óbvio, o jornal alternativo não as pretendia transcrever, pelo menos integralmente, o que atesta a marcação mais cerrada da dita­dura sobre os tablóides independentes", afirma João Antônio, em artigo no jornal Nicolau[2].

Com o abrandamento do regime a partir de 1975, surgem várias frentes democráticas e populares de oposição, que lançam suas próprias publicações, como os tablóides Opinião e Movimento. Este último foi considerado como o projeto político mais destacado desse tipo de imprensa, com organização interna efetivamente alternativa. Essa nova organização reunia uma Sociedade de trabalhadores do jornal, um Conselho de redação e outro de personalidades políticas, além de representantes de várias correntes de esquerda, empresários nacionalistas e personalidades democráticas liberais.

Foram lançados também alguns jornais em defesa dos direitos das minorias, sendo porta-vozes ou não de movimentos como o feminista, o homossexual, o negro e da causa indígena. O primeiro dentre os jornais feministas foi Brasil-Mulher, formado por uma frente política; em seguida ti­vemos Nós-Mulheres e Mulherio, jornais que tratavam da situação da mulher na sociedade brasileira. Para abordar a homossexualidade, surge o jornal Lampião, lançado em 1978 por jornalistas e artistas do Rio de Janeiro e São Paulo, jogando a discussão da questão homossexual para fora do gueto. Já Porantim, ligado ao Conselho Indiginista Missionário (Cimi), tratava especificamente da questão do índio.

Outra publicação importante surgida nesse período foi Cadernos do Terceiro Mundo, especializada em economia, política, cultura e organização social dos países africanos e latino-americanos. No início editado fora do Brasil, só com a anistia de 1979 a equipe de Cadernos do Terceiro Mundo pode retornar ao país e montar sua sede central, de onde se produzem edições em várias línguas e com circulação internacional.

O progressivo relaxamento da censura na segunda metade da década de 1970 abriu espaço para que a imprensa empresarial enfocasse assuntos antes trata­dos apenas pela imprensa alternativa. Por outro lado, além dos jornais representando as minorias discriminadas, outros surgiram para ampliar a produção da imprensa alternativa brasileira.

Em Belo Horizonte tivemos De Fato, que era um jornal de denúncias. No Rio Grande do Sul foram lançados em 1976 os jornais políticos Posição e Informação. Num projeto político de frente popular que congregava artistas, jornalistas, profissionais e estudantes surgiu em 1977 o jornal Mutirão, no Ceará. Os jornalistas reunidos em cooperativas lançaram Coojornal em Porto Alegre, Jornacoop em Santos, Coojornat em Natal e Concisa em Salvador.

Com maior liberdade para as empresas jornalísticas e a tendência de especialização da imprensa alternativa muitos jornais voltados exclusivamente à política e ao combate ao regime estabelecido foram perdendo es­paço e público. Suas tiragens eram cada vez menores e apresentavam déficit financeiro, sobretudo a partir de 1979 com a Abertura Política, que concluiu o período de distensão do regime. O golpe de misericórdia veio a acontecer em 1980, quando os setores mais radicais da direita, inconformados com a Abertura e a liberdade de ex­pressão, investiram contra os jornaleiros com atentados a bomba às bancas que vendiam esse tipo de publicação.

Se por um lado a Abertura Política trouxe a dispersão das frentes populares e correntes políticas, por outro contribuiu para que surgissem publicações político-partidárias representantes de novas e tradicionais tendências da esquerda. Entre os jornais desses grupos temos Em Tempo, Companheiro, Tribuna da Luta Operária, Voz da Unidade, Hora do Povo, Trabalho e em particular o Jornal dos Trabalhadores, editado pelo Partido dos Trabalhadores. Dentre os partidos oficiais, este foi único jornal de circulação nacional que divulgava a proposta do partido e as lutas populares[3].

Apesar de toda adversidade enfrentada, foi por intermédio da imprensa alternativa que se registrou a história das lutas populares e dos movimentos sociais na década de 1970. Jornais com as mais variadas feições e abordagens como Pato Macho, De Fato, Lampião, Versus, Coojornal, Movi­mento, Posição, Mulherio, Nós-Mulheres, Opinião, O São Paulo, Paralelo, Bondinho, Mutirão etc., com tiragens que variavam entre cinco mil e 200 mil exemplares, como O Pasquim em seu auge, são documentos incontestáveis da intensa participação das classes sociais no panorama histórico da época.

Em síntese, a comunicação alternativa e popular no Brasil registrou três fases distintas nas mudanças políticas, econômicas e sociais, assim como três processos diferentes de comunicação. Na visão de Regina Festa, "a primeira fase, que corresponde ao período de 68 a 78 - entre o AI-5 e a abertura política - caracteriza-se por uma comunicação de resistência, denúncia e acumulação de forças por parte das oposições; a segunda fase, de 78 a 82, período de explosão social, eleições nacionais, abrandamento das restrições políticas, caracteriza-se por projetos políticos bem defini­dos e pela existência de uma comunicação popular, multiplicadora de meios nas bases e pelo quase desapareci­mento da comunicação alternativa; e o terceiro período, de 82-83, caracteriza-se por uma atomização do processo de comunicação popular e alternativa na medida que reflete a incapacidade das forças de oposição para articularem uma alternativa política à crise atual vivida pela sociedade brasileira."[4]


Outras alternativas

Em vários níveis, em grupo ou isoladamente, artistas das mais diversas expressões culturais manifestaram seu descontentamento com o regime militar vigente. Tome­mos como exemplos dessa resistência o Poema-Processo, a Mail Art - ou Arte Postal, ou ainda Arte Correio -, o movimento alternativo de poesia, mais conhecido por Geração Mimeógrafo, as revistas alternativas de Histórias em Quadrinhos e Humor e outras formas de expressão artísticas como o Cinema Novo, o Cinema Udigrudi, happenings teatrais e intervenções de artes plásticas no espaço urbano.

A Geração Mimeógrafo, formada principalmente por jovens excluídos dos projetos editoriais das grandes editoras, ganhava o público no contato direto com o leitor, vendendo seus livretos, impressos de forma artesanal, em bares e portas de teatros. Para Nicolas Behr, um dos expoentes da Geração Mimeógrafo, esta nova forma de produção da obra literária surgiu como os não-alinhados, como uma opção dentro dos três blocos de poesia de vanguarda do início dos anos 1970: Poesia Concreta, Poesia Praxis e Poema Processo.

"Geração Mimeógrafo é, antes de mais nada, uma atitude. Fazemos parte da geração do atalho, vamos pelo desvio e burlamos todo o esquema editorial montado em cima do livro. Quando se edita um livro em mimeógrafo o autor tem condições de manter seu trabalho vivo. Um livro sempre aberto, sempre inacabado"
[5], ressalta Nicolas Behr.

Além do tom quase sempre inflamado, irreverente e questionador da produção literária da Geração Mimeógrafo, os fatores que mais se sobressaem são o domínio sobre a produção, a independência de idéias e o poder de transformação da obra sem os limites ou conveniências editoriais. Assim como a imprensa alternativa voltada para o jornalismo, a Geração Mimeógrafo procurava ser autônoma e contava para isso com a cumplicidade do público.

Por outro lado, por seu caráter artesanal, ela abria a possibilidade de cada leitor se tornar porta-voz de suas próprias idéias. Essa Geração extrapolava os objetivos imediatos do discurso e se trans­formava numa atitude, onde o emissor se confundia com as idéias transmitidas, com o processo de produção e com o público com quem pretendia se comunicar.

Dentre as muitas denominações atribuídas à produção da Geração Mimeógrafo, uma das mais utilizadas, e sem dúvida das mais polêmicas, foi a que a ela se referia como poesia marginal. Sobre o assunto Márcio Almeida comenta, de forma incisiva, a rotulação: "Como em todo início de carreira, também o poeta não tem público. O seu poema é que vai fazê-lo, motivá-lo. Por isso, a experiência do mano a mano é importante. Para se criar um público-leitor, para se buscar a 'outridade' da leitura do poema, para por à prova uma linguagem, para resistir à ideologia capitalista contra o poder dos signos, para sentir a capacidade da interação humana e para melhor posicionar-se como independente, autônomo. Contudo, retifico uma questão: não existe poeta marginal, poesia marginal. Isso é invenção de amebóides. A marginalidade é pro­duto da sociedade, não da poesia."[6]

Mesmo que se questione a utilização do termo poesia marginal, deve­mos observar de antemão o processo de produção e veiculação desses autores frente ao modo de produção das editoras comerciais. Poesia marginal era uma denominação esboçada em seu sentido literal, indicando o que está à margem de um sistema estabelecido.

Glauco Mattoso, considerado um dos maiores poetas dessa geração, enxerga por outro ângulo a questão do rótulo de marginalidade e ressalta que "na verdade, 'marginal' é simplesmente o adjetivo mais usado e conhecido para qualificar o trabalho de de­terminados artistas, também chamados 'independentes' ou 'alternativos' (por comparação com a imprensa 'nanica' teoricamente autônoma em relação à grande imprensa e contestadora em relação ao sistema). Dizer que um poeta é marginal equivale a chamá-lo ainda de 'sórdido' e 'maldito' (por causa da noção de anti-social), mas esses adjetivos soam mais como elogio porque viraram sinônimos de alternativo e independente. Ou seja, o sentido deixa de ser pejorativo e se inverte a favor de quem recebe o rótulo, muito embora alguns dos assim chamados prefiram outros rótulos ou não aceitem nenhum."[7]

De qualquer modo como possamos chamá-los, o importante é que os poetas dos anos 1970 se enquadraram na chamada cultura de resistência, denunciando o estado policial e repressivo que assolava o país. No entanto, como reforça Socorro Trindad, essa resistência era limitada pela resposta do sistema – que sempre pro­punha representações culturais sistematizadas –, e pela forma espontânea e na maioria das vezes desorganizada da produção[8].

Em virtude dessa espontaneidade, "analisar o período e, nele, a atividade literária, pressupõe que se estabeleça a relação existente entre o Estado de Segurança Nacional e a produção artístico-cultural, considerando aí a política de terror encetada pelos governos militares, institucionalizando a censura e até a tortura e a morte, para então poder enquadrar tudo e todos, especialmente os chamados 'inimigos internos', na legislação autoritária e repressiva que passou a vigorar no país a partir de 1964, autodotando os seus governantes de poderes ilimitados. Neste confronto de forças, que resultaria numa luta desigual para os escritores (e os artistas em geral), faz-se necessário ressaltar ainda as contradições engendradas pela censura em relação às suas concepções estéticas, e a partir daí definir até onde a resistência cultural - através da representação formal de livros, periódicos, peças de teatro, músicas, filmes, exposições, etc – foi esgotada ou se esgotou em conseqüência das ordens, contra-ordens e decretos."[9]

Com a mesma iniciativa dos editores das revistas literárias independentes, os cartunistas e quadrinistas, que proliferaram incentivados pelo sucesso de O Pasquim, partiram para a produção de suas próprias revistas. Elas eram impressas em pequenas gráficas e vendidas de mão em mão em universidades, bares, teatros e livrarias especializadas. Com tiragem que não ultrapassava os três mil exemplares, em geral de pequeno formato, com impressão precária e produção artística irregular, essas re­vistas paralelas contavam com o entusiasmo de quem se autoproduzia. Fugindo aos bloqueios e limites do mercado editorial elas abriam espaço para novos artistas, que só aí encontravam liberdade para se expressar.

Os cartuns e os quadrinhos veiculados nas revistas alternativas tinham, também, um marcante conteúdo ideológico de oposição ao regime político da época. Muitos dos quadrinistas faziam parte das vanguardas de movimentos estudantis e diretórios acadêmicos de faculdades de Comunicação e Arquitetura, sendo em grande parte apoiados por estas entidades na produção de suas revistas.

É o caso da lendária revista Balão, que foi a responsável pela formação de toda uma geração de quadrinistas. O exemplo mais eloqüente do amadurecimento dessa geração é o sucesso de Laerte, Paulo Caruso, Angeli, Luis Gê, com suas tiras, charges e histórias em quadrinhos publicadas em livros, revistas e nos principais jornais brasileiros, e mesmo por editoras internacionais.

Balão surgiu em 1972. Apesar de ter tido apenas nove edições, ela trouxe uma grande renovação gráfica e temática aos quadrinhos brasileiros, abrindo espaço para a publicação de trabalhos que não podiam circular em outras revistas por questões políticas ou por causa de sua proposta experimental.

José Antonio Silva observa que era possível notar-se duas linhas de participação na revista Balão: "O trabalho ainda amadorístico, muitas vezes, do ponto de vista técnico, mas com uma carga de criatividade descompromissada, pesquisa. Foi um laboratório, do ponto de vista técnico e artístico, e também do ponto de vista de expressão do pensamento - e este é dos aspectos mais importantes."[10]

Um dos problemas das revistas alternativas de histórias em quadrinhos era a falta de periodicidade. Elas saíam quando era possível, quando se tinha dinheiro e material para ser publicado. Mesmo editadas de forma quase artesanal, os custos gráficos eram altos, com o agravante de que raramente podiam contar com recursos de publicidade nem com garantia de circulação. Ainda assim, contornando todas as dificuldades, revistas como Balão, que surgiram em todo o país, é certo que não davam lucro, mas muitas cobriam os custos de produção.

Em março de 1975 a editora Codecri, que editava O Pasquim, lança a revista O Bicho, sob o comando do cartunista Fortuna. Para Waldomiro Vergueiro, "sua proposta editorial era exemplar, representando o que de mais combativo existia nos nossos quadrinhos de então. Dela participavam desenhistas como Paulo Caruso, Luis Gê, Guidacci, Coentro, Márcio Sidnei, Lapi, Fortuna, além do argentino Quino e do norte-americano Crumb. O Bicho alcançou a marca de oito números publicados. Aliás, é de justiça destacarmos que os títulos de quadrinhos alternativos alcança­ram, via de regra, poucos números, devido à circulação restrita e ao número bastante limitado de consumidores."[11]

Outra excelente revista foi Grilo, lançada no início dos anos 1970. Ela circulava com o melhor dos quadrinhos internacionais para adultos e foi a responsável pela entrada no país dos quadrinhos underground, surgidos nos Estados Unidos no final dos anos 1960, e dos quadrinhos eróticos europeus. A revista Grilo, apesar de quase só veicular material estrangeiro - a exceção de Sérgio Macedo, que publicou uma história incompleta já nas últimas edições - representou uma significativa contribuição para a formação dos quadrinistas brasileiros, tendo, inclusive, influenciado os editores de muitas de nossas revistas alternativas.

Nesse período, em todo o país lançaram-se publicações alternativas de quadrinhos. Em 1973, no Rio de Janeiro, saía A Esperança no Porvir, com Milton Machado, Cao e Mauro Costa e em 1976 foi lançada Virus, com Leib, Beinder e Ricardo Leite. Em Belo Horizonte surgia UAI!, com Luppi, LOR e Nilson, entre outros; de Brasília tivemos Risco, em 1976, onde se desta­cava Jô Oliveira, um brasileiro de renome internacional.

No Nordeste podemos citar Ôxente, de João Pessoa, que era uma publicação coletiva de quadrinhos e humor financiada pelo Diretório Central dos Estudantes da UFPB. Essa revista, lançada em 1978, abordava temas essencialmente políticos sobre problemas da região. Tivemos também a revista Maturi, do Grupo de pesquisa de Histórias em Quadrinhos (Grupehq), de Natal; Baú de Cartuns, de São Luis e Pau de Arara, de Fortaleza.

As revistas alternativas de quadrinhos voltavam-se mais para a produção brasileira. Havia o protesto contra a invasão dos quadrinhos enlatados estrangeiros, publicados massivamente e de forma indiscriminada pelas grandes editoras. Em paralelo às revistas alternativas, outra forma de resistência ao fechado mercado editorial iniciou-se de maneira tímida em meados da década de 1960. Os boletins de fãs-clubes, surgidos nesse período, tomaram impulso no final dos anos 1970 e começo de 1980.

Chamados inicialmente de boletim e na década seguinte de fanzine, essas publicações especializaram-se em noticiar o que ocorria no mundo dos quadrinhos tanto no Brasil quanto no exterior. Elas abriam espaço para a troca e venda de revistas antigas, facilitando o intercâmbio entre colecionadores.

Com o tempo, os fanzines tornaram-se cada vez mais especializados, diversificados em suas temáticas, suas abordagens, seu formato e impressão. A disseminação dos fanzines por todo o país gerou uma intensa troca de in­formações e a formação de um público, ainda que restrito, ávido por conhecer e incentivar a produção de quadrinhos nacionais.

* MAGALHÃES, Henrique. O rebuliço apaixonante dos fanzines. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2003, p.11-22.


[1]. Raimundo Rodrigues PEREIRA, Vive a Imprensa Alternativa. Viva a Imprensa Alternativa! In Regina FESTA & Eduardo Lins da SILVA (org.). Comunicação Popular e Alternativa no Brasil. São Paulo: Edições Paulinas, 1986, p.61.
[2]. João ANTÔNIO. Escapada (Considerações em torno à censura imposta a um jornal alternativo, 'Movimento', nos anos 1975-1981). In Nicolau n° 6. Curitiba: dezembro 1987, p.10-13.
[3]. Regina FESTA. Movimentos Sociais, Comunicação Popular e Alternativa. In Regina FESTA & Eduardo Lins da SILVA. Op. cit., p.25.
[4]. Idem, ibidem.
[5]. Nicolas BEHR. VVAA. In 1° Encontro de Arte Brasileira In­dependente. São Paulo: janeiro 1981, p. 4.
[6]. Márcio ALMEIDA. In Arte Quintal n° 0. Julho/agosto 1987.
[7]. Glauco MATTOSO. O que é poesia marginal. São Paulo: Brasi­liense, 1981. p.8 e 9.
[8]. Socorro TRINDAD. A maioridade de um período que passou (?) (1964-1988). In O Galo n° 2. Natal: abril de 1988, p.18 e 19.
[9]. Idem, ibidem.
[10]. José Antonio SILVA. Opções e luta dos quadrinhos nacionais. In Movimento n° 103. 20 de junho de 1977, p.16.
[11]. Waldomiro de Castro Santos VERGUEIRO. História em Quadrinhos: seu papel na indústria de comunicação de massa. Dissertação de Mestrado em Ciências da Comunicação, Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, 1985, fotocopiada.

2 comentários:

Sandra Raquew disse...

Olá Henrique, estou feliz por encontrar seu blog!!! Parabéns pelo trabalho que vem realizando e pelo projeto Calango. Gostaria muito de bater um papo contigo.

um abraço
sandra raquew

Mayra disse...

Professor, qual seria a referência deste trabalho?