segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O que é alternativo*


Definir o que se entende por alternativo sempre suscitou muita controvérsia. Para alguns, a publicação alternativa deveria partir de uma iniciativa independente, nunca financiada por qualquer órgão público; deveria ser uma contraposição ao que é convencional; Para outros, se caracteriza por apresentar uma posição ideológica contestadora ou revolucionária; poderia definir-se, também, pela forma de se transmitir a mensagem.

É certo que para as publicações alternativas não existe uma definição precisa, muito embora possamos apontar aspectos alternativos em determinados veículos de comunicação. Podemos classificar a comunicação alternativa a partir da ênfase dada ao emissor, ao meio, ou ao receptor, aos objetivos que se deseja alcançar bem como à própria linguagem utilizada.

Há quem defina comunicação alternativa como comunicação popular. Outros a consideram como comunicação marginal, ou fora do sistema, como as rádios e TV livres, ou ainda como a comunicação ideológica em oposição ao sistema capitalista, em particular nos países do Terceiro Mundo.

Para Miquel de Moragas e Emílio Prado, a comunicação alternativa é um processo que permite uma inversão do signo a respeito da comunicação dominante. Esta inversão pode situar-se em diversos níveis e funções comunicativas: em nível de seu conteúdo, da natureza do processo que se estabelece e, por conseguinte, da função social que se deriva dos anteriores aspectos
[1].

Fernando Reys Matta classifica a comunicação alternativa em três níveis de meios e ações: "Los microalternativos, los intermedios y los macroalternativos. Los pri­meiros actúan en los espacios de base más inmediatos y populares; los intermedios en los niveles nacionales y de alcance masivo; los macroalternativos construyen dimen­siones contestatarias al modelo capitalista transnacional en los grandes espacios regionales y mundiales. Cada uno tiene su especificidad y a cada uno corresponden tareas distintas."[2]

Para Fernando Reys, não pode haver comunicação alternativa sem uma prática social que a justifique. Em seu conceito, voltado para os meios de comunicação de massa, destaca-se a mensagem como fator preponderante para a classificação do que seja comunicação alternativa. No contexto de dominação imperialista, sobretudo na América Latina, os alternativos se caracterizam pela criação de uma expressão própria, de um mundo cultural renovador e uma resistência cultural frente ao processo de dominação internacional. Nesse âmbito, a comunicação alternativa é vista sob vários ângulos e corresponde a realidades e contextos sociológicos diferenciados.

Em outras esferas, como as das manifestações artísticas, que não se enquadram precisamente entre os meios de comunicação de massa, formas alternativas de produção e interpretação da realidade também se manifestaram há tempos e de forma ainda mais radical. Fontcuberta e Mompart nos lembram que o surrealismo e o dadaísmo, por exemplo, foram movimentos que propuseram uma alternativa global à vida[3].
Com freqüência, o termo alternativo tem sido usado para identificar os meios de comunicação utilizados pela esquerda, como jornais, panfletos, audiovisuais, filmes proletários ou ligados a sindicatos, em contraposição à política oficial. Mas é também usado para designar as publicações de produção artesanal, feitas em mimeógrafos, fotocópias e serigrafias, com críticas ao sistema capitalista e à sociedade dita burguesa.

O que é considerado alternativo em um país pode representar apenas uma forma estabelecida de comunicação em outro, dependendo do sistema político vigente. Diante da ambigüidade do termo e da dificuldade de se estabelecer um conceito preciso, recorremos a uma definição de Fontcuberta e Mompart sobre os fatores que podem determinar o que seja alternativo:

"Lo alter­nativo en comunicación no existe como definición estable ni puede existir. Lo alternativo depende de la coyuntura concreta de cada panorama comunicativo. Más que hablar de comunicación alternativa hay que referirse a elementos alternativos en la comunicación."[4]

Os elementos alternativos da comunicação, por sua vez, podem ser classificados em linguagem, mensagem e forma de produção. Em princípio, todos os meios se pres­tam à comunicação alternativa, dos mais artesanais, como a impressão em mimeógrafo e serigrafia, aos meios eletrônicos, mais avançados em termos tecnológicos, como o rádio, a televisão e a informática. Nos anos 1980 assistimos a um verdadeiro assalto aos meios eletrônicos, subvertendo-se o sistema de produção estabelecido. Rádios e televisões livres entra­ram no ar por intermédio de cooperativas e de grupos independentes, fora das prerrogativas de concessões oficiais.

A utilização desses meios, pelo caráter de contravenção e desobediência à concessão estatal das ondas eletromagnéticas, já poderia ser considerada alternativa. Além disso, essas cooperativas pro­curaram fugir à massificação das rádios FM e grandes redes de televisão, gerando uma linguagem irreverente, satírica e fora dos padrões do bom gosto habitual. Neste caso, temos a confluência dos três elementos que distinguem uma comunicação alternativa: a forma de produção associativa, administrada por cooperativas, a linguagem diferenciada dos padrões convencionais e a mensagem de contestação ao sistema estabelecido.

As publicações alternativas partiam desse mesmo princípio. Tanto os jornais da década de 1970 quanto as re­vistas em quadrinhos e as coletâneas literárias tinham por trás de sua produção equipes de escritores, de desenhistas ou de jornalistas que trabalhavam sob uma organização democrática, sem a rigidez dos papeis e funções estabelecidos na imprensa convencional.

Com o tempo, porém, este tipo de produção e organização mostrou-se incapaz de responder às exigências do mercado. A periodicidade a ser mantida, os custos gráficos cada vez mais altos, a falta de experiência empresarial e mesmo os conflitos que uma relação de trabalho igualitária provoca, acaba­ram mostrando, na prática, o árduo caminho que as publicações alternativas tinham que trilhar para se firmar.

A saída para a manutenção de algumas publicações foi partir para uma forma de produção mais aproximada da convencional, assumir uma estrutura de empresa com divisão de trabalho bem determinada e se apoiar no mercado publicitário. Esta foi a fórmula encontrada por O Pasquim para sobreviver ao esfacela­mento da imprensa alternativa na década de 1980.

Se a forma de produção é um dos fatores determinantes para a comunicação alternativa, o conteúdo - ou a mensagem - é funda­mental para que possamos classificá-la como tal. Por outro lado, a linguagem tem sua importância formal, sobretudo quando não está vinculada a uma forma de produção e mensagem conservadoras.

Dentre os elementos que caracterizam as publicações alternativas, ressalta­mos, portanto, a mensagem como o mais importante, por seu conteúdo reflexivo e questionador. No entanto, vale lembrar que quanto maior a confluência de todos os elementos, maior seu poder de transformação.

A imprensa alternativa, embora tenha ficado marcada no Brasil como uma forma de oposição ao regime militar de 1964, possui uma amplitude muito maior que esta circunstância política. Se nos anos 1960 e início da década de 1970 essa imprensa centrou fogo na contestação ao sistema político, logo se abriu para outras temáticas, como os problemas comunitários das associações de bairros e a luta de afirmação dos grupos sociais discriminados – as chamadas minorias.

A imprensa alternativa é, também, o canal de ex­pressão dos setores oprimidos da sociedade, que não encontram espaço de reflexão e manifestação na imprensa convencional. Sua denominação foi proposta pelos jornais Bondinho e EX. - mais ligados aos aspectos formais da imprensa -, que em 1970 classifica­ram de imprensa alternativa as publicações populares, democratizadas em seu processo de produção, de denúncia e apresentação de novas propostas editoriais.

* MAGALHÃES, Henrique. O rebuliço apaixonante dos fanzines. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2003, p.23-26.


[1]. Miquel de MORAGAS y Emílio PRADO, citados por Mar de FONTCUBERTA & J. L. Gomez MOMPART. Alternativas en Comunicacion. Barcelona: Editorial Mitre, 1983, p. 21.
[2]. Fernando Reys MATTA, citado por Mar de FONTCUBERTA & J. L. Gomez MOMPART. Op. cit. p. 22.
[3]. Mar de FONTCUBERTA & J. L. Gomez MOMPART. Op. cit. p. 24.
[4]. Idem, ibidem, p. 26.

Um comentário:

Alinne disse...

Olá Professor!
Sou Alinne, estudante de RP da UFMA. Li e gostei muito da sua abordagem sobre o que é alternativo. Dentre todos os textos que já li sobre esse assunto, o seu é o mais exato. Gostaria de saber se vc poderia me assessorar na produção de um texto com essa temática. Estou com dificuldade de localizar referências.
Meu email é alinne_meireles@hotmail.com - se possível, entre em contato para que possamos conversar melhor sobre isso!

Desde já, agradeço a atenção!
Até!